Fragmentos de Levana e Nossas Senhoras das Tristezas
(…) muitas vezes, vi Levana nos meus sonhos. (...) Levana enobrece o ser humano que ela protege, mas por meios cruéis. É dura e severa, essa doce ama, e entre os processos que usa para aperfeiçoar a criatura humana prefere, acima de todos, a dor. Três deusas lhe são submissas, e ela as emprega em seus desígnios misteriosos. (...) São as Nossas Senhoras das Tristezas. (...) entre si, não se servem da voz; não emitem sons; um silêncio eterno reina em seus reinos... A mais velha das três irmãs chama Mater Lachrymarum, ou Nossa Senhora das Lágrimas. É ela que, noite e dia, divaga e geme, invocando rostos desaparecidos. (...) Seus olhos são alternadamente meigos e penetrantes, assustados e adormecidos, erguendo-se muitas vezes para as nuvens, freqüentemente acusando os céus. (...) E como ela foi a primeira a nascer e possui o império mais vasto, honrá-la-emos com o nome de Madona. A segunda irmã se chama Mater Suspiriorum, Nossa Senhora dos Suspiros. Nunca escala as nuvens nem passeia sobre os ventos. (...) Seus olhos, se pudéssemos vê-los, não pareceriam meigos, nem penetrantes; não se poderia descobrir neles nenhuma história; encontrar-se-ia somente uma massa confusa de sonhos quase mortos e os restos de um delírio esquecido. (...) Mas a terceira irmã, que é também a mais jovem!... Pisiu! Falemos dela bem baixinho. Seu domínio não é grande; se o fosse, nenhum ser sobreviveria; mas sobre seu reino o poder que exerce é absoluto...(...) Ela desafia Deus. É também mãe das demências e a conselheira dos suicidas... A Madona caminha com um passo irregular, rápido ou lento, mas sempre com uma graça trágica. Nossa Senhora dos Suspiros desliza timidamente e com precaução. Mas a mais jovem das irmãs move-se com movimentos imprevistos; salta; tem os pulos do tigre. (...) seu nome é Mater Tenebrarum, Nossa senhora das Trevas. (...) Tais eram as Eumenides ou Graciosas Deusas que assombravam meus sonhos em Oxford. A Madona falava com sua mão misteriosa. Tocava-me na cabeça, chamava com o dedo a Nossa Senhora dos Suspiros, e seus sinais, que nenhum homem pode entender, salvo em sonho, poderiam ser assim traduzidos: ‘Vê! (...) Preparei esse jovem idólatra pra ti, querida e meiga Irmã dos Suspiros! Toma-o agora para nossa terrível irmã. (...) Não permitas que nenhuma mulher, com sua ternura, venha sentar-se junto dele na sua noite. Expulsa todas a s fraquezas da esperança, seca os bálsamos do amor, queima a fonte das lágrimas; amaldiçoa-o como só tu sabes amaldiçoar. (...) Assim, lerá as antigas verdades, tristes verdades, as grande, as terríveis verdades. Assim ressuscitará antes de ter morrido. E nossa missão estará cumprida(...).
baudelaire . paraísos artificiais